O texto a seguir é uma tradução poética (em andamento) de Sir Torrente of Portyngale do inglês médio tardio da obra para o português de hoje em dia. A (re)composição da obra é informada pela teoria de nome transcriadora, desenvolvida por Haroldo de Campos com atravessamentos de Ezra Pound, Max Bense, Roman Jakobson, Walter Benjamin e muitos outros. Portanto, nosso projeto não tem por objetivo uma tradução meramente literal nem servil, mas, sim, uma transcriação do texto em outro de estética paralela e em língua portuguesa, que mire em preservar as operações poéticas da forma fixa do original (métrica, ritmo, rima, aliteração, sequência poética de imagens & tom).

Edição presente no Manuscrito n.8009 (fólios 76r-119v), 1400.
Edição de James Orchard Halliwell, 1842.
Edição de Erich Adam, 1887.
Edição de James Wade, 2016.




SIR TORRENTE OF PORTYNGALE DOM TORRENTE DE PORTUGAL
H ere bygynneth a good tale
Of Torrente of Portyngale.
A qui começa a boa história tal!
A de Dom Torrente, o de Portugal.
God that ys worthy and bold
heuen and erthe have in hold,
fyld, watyr and wynde,
yeve vse grace hevyn to wyne,
and brynge vs owt off dedly synne
and in thy seruyse to ende!
A stounde and ye woll lyst be-dene,
ale dowghtty men þat euyr hathe ben,
wher so that they lende,
I schall yow tell ore I hense pase,
off a knyght, þat dowghtty wase,
In Rome ase clarkys ffynde.
Deus Eterno a quem consagro minh'alma,
quem céu e terra ambos têm à Sua palma,
tal como o campo, a água, e o ar,
dai-nos graça do paraíso herdado,
salvai-nos, ó Pai, do mortal pecado
para em vosso servir terminar.
Hora agora em que ouvirão dos nomes
de toda sorte de valentes homens,
seja a terra em que façam lar.
Direi-os pois, antes que eu prossiga,
de um nobre audaz que há muito vivia
em Roma, o clero assim dirá.
In Portyngall, that ryche londe,
an erell that wase wonande,
that curtese wase and wyght;
sone aftyr he had a sone,
the feyerest þat on for myght gon,
Tyrrant, men seyd, he hyght.
be tyme he wase XVIII yer' old,
of deddes of armys he wase bold,
to felle bothe kyng and knyght;
and now commynthe dethe appon a day
and takythe hys father, ase I yow sey,
for god ys most of myght.
Em Portugal, naquela rica terra,
esse nobre, linda casa fizera.
cortês que era, e varonil:
lhe veio um filho disso pouco após,
mais belo que todos aqui entre nós,
Torrente, chamaram o juvenil
que aos dezoito já tinha braço forte
p'ra, cavaleiro ou rei, trazer à morte.
Tão logo veio uma brisa sutil
e levou da vida seu pai idoso
a morar com Deus, Todo-Poderoso,
em seu galardão de cor de anil.
The king of Portyngall wase fayne,
to-warde hym he takythe Torrayne,
that dowghty ys in dedde;
and ther he fé somnyd in hys hond
a good eyrldom in that lond,
bothe forest and fede.
The kyng hathe a dowghttyr whyte ase sonne,
Dysonell wase her nome,
worthyest in wede.
when Torrent had of her a syght,
more he lovyd that swete wyght
than all ys fathyrys lede.
O rei português estava contente
na hora em que chamaram Dom Torrente,
o conde corajoso & franco.
Em mãos, seu tributo que pago era
pelo condado de Braga. Sua terra
viçosa de bosque e de campo.
A Princesa, mais que sol, era alva.
E era bela, não menos, a sua graça:
Dysonella, chamou-a ele em canto.
Caiu tal vítima do amor que cega
na hora em que viu o rosto da donzela
mais bela da terra em seu manto.